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4 min readMar 8, 2019

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Lesbicalize no 8M do grupo mais apagado.

Não é incomum atualmente que toda discussão em grupos não leigos termine em algo extremamente subjetivo e acusações de privilégios absolutamente descontextualizadas a fim de censurar quem pontua algo que desagradou, independentemente de o argumento ser bem elaborado e a conclusão correta e válida, a vivência agora sobrepuja o conhecimento teórico em um desequilíbrio contraproducente.

É correto fazer intersecção para mapeamento e elaboração de políticas, bem como é correto determinar espaços onde cada problemática será abordada e articulações com outros grupos, cada organização tem seus interesses, perpectivas e prioridades. Qual é o compromisso com as lésbicas? Para o nosso azar, toda merda de opressão criada pelo homem e sentida por quem se relaciona com eles vai ser posta para nós resolvermos também (muitas vezes na nossa conta), mesmo que não sejam o centro da nossa vida, mesmo que evitemos reproduzir seus modelos, porque nós estamos no mundo, somos mulheres e multifacetadas, dificilmente uma de nós só é lésbica e se esquiva de todos os outros grupos marginalizados, mas de nós se exige tutela, servidão, compreensão e alianças sem retorno.

Participei de grupo proletário, étnico, de pessoas com deficiência, de mulheres e nunca vi lésbicas exigirem ou serem prioridade de coisa alguma, porém não é raro que em toda reunião de lésbicas lesbiandade e lesbofobia nem sequer constem como encaminhamento, tudo é prioridade, menos nós.

No Dossiê do Lesbocídio os percentuais de 2017 chamam a atenção não só pelo aumento de 237% em relação a 2014: nós fomos o único grupo onde a maior parte das mortas foram brancas (57%) p.64, some-se a isso que a maior parte era não-feminilizada (54%) p.63 e fica evidente que a maior questão das lésbicas, o que as caracteriza e direciona ódio a quem faz parte do grupo além da negação do corpo a quem tem pênis, sair do papel de submissa e solícita, é o estereótipo e a mensagem que ele passa de que esta mulher não tem intenção de seduzir ou agradar homens. Nos dominadores o comportamento e imagem emitidas soam como provocação que merece correção brutal, de forma que um homem nunca trataria outro, mas que intenciona que essa mulher nunca mais se rebele, que seja novamente domesticada, obediente ou extinta.

Não existe privilégio para uma lésbica que saiu do estereótipo e papel “femininos” (não há algo mais masculino do que fazer o que homens desejam), essa mulher abjeta aos olhos da sociedade é deslegitimada enquanto mulher, se torna aberração, algo que heterossexualizadas admitirão como tentativa frustrada de ser homem, como inveja, como tão agressivo e ameaçador quanto eles; porque mulher que se relaciona com homem não sabe o que é liberdade de fato (ou estaria sozinha), o parâmetro de liberdade é masculino, a liberdade da falocentrada é dentro do seu cercado, bradando que faz o que quer de cabeça baixa, entre murmuros e soluços com um sorriso na maquiagem cara que ela perdeu tempo fazendo.

O backlash (atitude reacionária contra movimento) do feminismo é justamente das mulheres que não querem sequer que homens cogitem que elas tenham pelos, sejam felizes com seu corpo como for, sejam sapatas, desprezem romantização da maternidade, não usem da hostilidade horizontal para dendê-los e caguem pro bem estar masculino. A única lésbica aceitável para essa mulher e seu macho é a não lésbica, a que topa ménage e aparece no pornô de salto e unha comprida pra esquentar sua relação falida e cansativa, a que finge que pênis não é pênis.

Conservadoras declaradas e feministas que apelam ao subjetivo fazendo do Feminismo um movimento de manutenção matrimonial para seu maior conforto têm em comum um ponto: são conciliadoras.

Volto ao começo: quem nega o corpo e não negocia com homens são as lésbicas, nós somos oposição frontal. Se isso nos faz enfrentar ao mesmo tempo homens e suas lacaias, se é motivo de morte entre nós, se nos obriga quando somos pobres a aceitar patronato determinando uso de banheiro masculino como no caso do Makro, se impede ascensão de carreira como por ser pouco “feminina” na Chilli’s Server, se faz uma ser estuprada corretivamente e queimada na frente da outra como Joey e Anisha na África do Sul e se tira de sala de aula como na Midlothian High School, por que não é pauta?

Que medo é esse que empurram pras mulheres não conseguirem falar das próprias problemáticas sem ter que abaixar pra meio mundo subir nas costas enquanto se sentem culpadas por pensar em si? É a socialização criada por homens e reforçada por quem se sujeita a eles exigindo o mesmo de nós.

Não se intimidem. Se levantem, questionem, sejam firmes, não hostilizem as suas, não vetem nossas questões. Compactuar com eles não te faz deixar de ser uma de nós, só te desprotege mais.

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P.

Lesbofeminista, liberal-socialista, autista, licenciada em Filosofia e Matemática.